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Tempus a tempus

um espírito próprio dos que vão estando a tempus, in tempus.

Tempus a tempus

um espírito próprio dos que vão estando a tempus, in tempus.

rituais

como sempre, esperou que mais ninguém viesse a sua Casa
para iniciar o seu labor.
quem visse, o quadro pareceria desajustado.

vestiu o kimono sem grande rigor.
desembainhou a katana com a posição quase correcta,
e olhou demoradamente, como sempre fazia, aquela tradicional
arma, original, completa, perfeita, sem aleijão, fria como o aço de que era feita.
os mantras haviam terminado e ficou
no silêncio do seu recolhimento
acompanhado pelo incenso que se espalhava.
durante horas, usou a boneca de areiras, roçando-a com firmeza apenas numa direcção.
o gume era absolutamente imaculado - nunca havia sido usada para o efeito da sua criação.
imaginou o esforço e perícia do artífice, que, vestido de branco, lhe gravara os oito caracteres em baixo relevo.
depois do óleo aplicado, voltou a examina-la.

achou-a perfeita
e deixou-a a repousar, no seu descanso de prontidão para ser empunhada e preparou-se para lutar.
que soubesse, não era o seu karma ter nascido nos tempos feudais daquelas ilhas longínquas.
mais do que fascínio e menos do que a vida segundo o bushido.
não tinha senhor e sabia não ser mercenário.
vivia segundo o seu código pessoal e tentava
como podia, superar-se.
afinal,  não era aquele ritual (pessoal) que era desajustado.
era a sua forma de estar na vida - foi o que lhe disseram.
foi do que o acusaram.
disso mesmo acabou por ser condenado:
por ser ele próprio.
sem olhar para trás,
fez por seguir a sua vida.
ainda segundo o seu código.

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