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Tempus a tempus

um espírito próprio dos que vão estando a tempus, in tempus.

Tempus a tempus

um espírito próprio dos que vão estando a tempus, in tempus.

datações

Na arqueologia da dor
não se sofre menos por cada ano volvido sobre
a perda de um ente: apenas se aprendeu
a conviver melhor com a ausência forçada.

As datas que então surgem, são
a tentação de combater o medo de nos esquecermos deles,
um paradoxo da vida,
pelos que vivem em nós após a morte.

Seja essa imagem,
em memória,
Amor e saudade,
mas não a dor.

dis trações

Olho a cadeira vazia
Percebo o verso
encantado
de um orador inconformado
por um estudo acabado
de um peito desolado
E olhar abafado
Nota-se a tua repetida
Ausência,
cai a tua imagem
E levanta-se a dúvida
Se à culpa se deve desculpa.

frag mentos

ali, na Praça, o centro, o velho cigano, de fato preto, exibe a chave do Mercedes na mão que gira enquanto a pulmão cheio e olhos cerrados, deixa sair uma cantilena totalmente étnica, totalmente inesperada, totalmente rouca, que espanta quem passa e prende de atenções quem fica.

baldou-se para o costume, para o ambiente e para o correcto e exerce ali mesmo o direito a ser o que lhe vai na alma.

não percebo se à esperança, felicidade ououtra qualquer conformidade sob a forma de dor de alma.

 

o cão fareja incessantemente as folhas e as relvas verdes; nao se decide; as patas aterram atabalhoadamente, como ele é todo, esquivo, elegante, trapalhão.

transporta na meiguice dos olhos e na penca enorme e ainda escura, toda a felicidade de quem não está só.

 

a rapariga esbofetei-a o rapaz que fica lívido, espartilhado entre a pública vergonha e a provada causa para aquele efeito.

 

as luzes do painel de controlo acendem como uma linda árvore de natal tecno, sempre que se pisa o travão. deixei de praguejar. mentalmente troco de oficina. abandono o que reclamo e aguardo. na mecânica, nada se se cria, tudo se desgasta.

 

distribuo o papel aos seus donos. distribuo a origem para mensalmente haver uma forte tributação. destruo sonhos a curtíssimo prazo. viro-me para os de médio prazo. o semáforo ficou amarelo. sem bofetada, senti o perigo.

mentes diferentes pensam diferentemente o tempo.

 

da melodia do "purple rain" caio nos miseráveis que ainda me impressionam a noite e preenchem a vida do dia.

o filme ali, o drama aqui tão perto. samba pa ti.

 

fecho o quinto livro de leitura simultânea. abro o coração. encho o que posso do pulmão, hoje mais curto; no cérebro desperta-se o aroma do tomate assado para sopa. ensinamentos finos para um rústico sólido.

 

fechos os olhos e vejo-te. recrio a sensação de chegar a casa. fico aí, preso nesse fragmento de memória, livre na espera de que chegue a vez da casa chegar a mim.