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Tempus a tempus

um espírito próprio dos que vão estando a tempus, in tempus.

Tempus a tempus

um espírito próprio dos que vão estando a tempus, in tempus.

verdade ou consequência

a vida não é um jogo de vontades. passa por um concerto de vontades. no exercíco destas existe, por vezes, imaturidade. ela não tem idade para se revelar, perante uma situação nova da vida de uma pessoa.

a imaturidade sai cara; paga-se cara. e é paga em custos de forma proporcional à idade. pode revelar-se por uma falta de tomada de decisões em tempo útil ao decurso da vida. e neste âmbito, pior que decidir mal, é não decidir de todo. deixar ir. não resolver.

a vida é demasiado preciosa e curta para ser desperdiçada com indecisões.

da verdade exposta, não fica mais que a consequência na sua mais pura forma: o insuportável amargo de vida.

rituais

como sempre, esperou que mais ninguém viesse a sua Casa
para iniciar o seu labor.
quem visse, o quadro pareceria desajustado.

vestiu o kimono sem grande rigor.
desembainhou a katana com a posição quase correcta,
e olhou demoradamente, como sempre fazia, aquela tradicional
arma, original, completa, perfeita, sem aleijão, fria como o aço de que era feita.
os mantras haviam terminado e ficou
no silêncio do seu recolhimento
acompanhado pelo incenso que se espalhava.
durante horas, usou a boneca de areiras, roçando-a com firmeza apenas numa direcção.
o gume era absolutamente imaculado - nunca havia sido usada para o efeito da sua criação.
imaginou o esforço e perícia do artífice, que, vestido de branco, lhe gravara os oito caracteres em baixo relevo.
depois do óleo aplicado, voltou a examina-la.

achou-a perfeita
e deixou-a a repousar, no seu descanso de prontidão para ser empunhada e preparou-se para lutar.
que soubesse, não era o seu karma ter nascido nos tempos feudais daquelas ilhas longínquas.
mais do que fascínio e menos do que a vida segundo o bushido.
não tinha senhor e sabia não ser mercenário.
vivia segundo o seu código pessoal e tentava
como podia, superar-se.
afinal,  não era aquele ritual (pessoal) que era desajustado.
era a sua forma de estar na vida - foi o que lhe disseram.
foi do que o acusaram.
disso mesmo acabou por ser condenado:
por ser ele próprio.
sem olhar para trás,
fez por seguir a sua vida.
ainda segundo o seu código.

tu aí, ao Sul!

Se te disse-se
Vive e deixa viver,
Acreditavas?
Se te disse-se que há mais vida
Sem a vida que tens,
Acreditavas?
Se te disse-se,
Para lhe dizeres o que tens,
Dizendo o que me dizes na ida,
Acreditavas?
Dizias?
Se te disse-se,
Que depende de ti dizeres
Que o que sentes não são afazeres
Acreditavas?
Se te disse-se que desistir de nada,
Não é sequer desistir?
Dizias-lhe?
Canta a vida que tens!
Tu homem do mar,
Agarra firme o leme nas mãos
Mas não tenhas medo de amar!
[...]
porque, irmão em armas,
eu, acreditando,
ouvi sem perceber;
e querendo dizer
não tive, depois, quem ouvisse.
Acreditas?

coesão extrema

[...] no trabalho era um grupo tão unido, tão homogéneo, tão pessoalmente intricado e envolvido, que sem darem conta, aquelas oito almas se juntaram num denominador comum da vida: uns com filhos, outros sem, uns mais novos, outros menos, acordaram para a realidade de precisamente ontem, todos estarem ao mesmo nível: separados ou divorciados.

Todos eles juravam que não iriam repetir erros; todos eles faziam votos de fé em algo de melhor; todos eles, visivelmente sofriam por ter feito sofrer - um compensava com a fuga para Índia - ninguém sabe se ele volta; se quer voltar.

Até o longínquo "humilde sarraceno" elegera como modus vivendi a dedicação ao rebento, deitando para trás das costas vida em comum.

Para espanto de outros noutros andares do mesmo edifício, todos eles cantavam a plenos pulmões a música de um tal "feitiço", mesmo não se conhecendo feiticeiras. A Santa Inquisição exterminara a confiança no efémero feminino e cavara a sepultura para corpos sem sentimento patilhável. E contudo, não havia naquele canto, naquela catarse, qualquer resquício de felicidade.

Julio Machado Vaz observava numa das suas recentes exposições, que cada vez mais tinha pacientes que, à roda dos "cinquentas", lhe confessavam que tinham tido uma vida exemplar e calma, restando a dúvida de nunca terem amado.

Há algo de profundamente errado na Vida, naquela irmandade de trabalho? Porque nos deixamos atrair pelo abismo da opção dolorosa? Era necessário? Era sal da Vida?

Tempus difíceis estes.[...]

a via

Um mantra tão simples na sua essência como no seu significado, tem que transmitir muito, com muito pouco. Se puder ser vocal e melodicamente repetido, a sua entoação não gera conforto, mas cria a possibilidade de se (re)encontrar um intervalo na vida tumultuosa e daí, eventualmente, um caminho para outra etapa da vida, qualquer coisa de diferente do estado actual, através "da via" - mais espiritual. Uns desistem e recorrem a auto-lesão da vida; outros recorrem à psicoterapia, outros ainda à religião, outros às drogas, mesmo que legítimas.

Parece-me que o denominador comum é a solidão na opção, ou a opção pela solidão, algo de contrário à natureza humana. Talvez daí o poeta ter dito "felizes dos loucos".

Na ciência, a física quântica vem agora defender que existe na vida uma consciência colectiva, universal, que afecta e é afectada pelo simples facto de se ser "um ser vivente": somos, também nós, átomos que interagem, aproveitando ao estado colectivo, o "melhor estado de vida possível". A lenta racionalidade científica demorou muito tempo (demasiado) a chegar àquilo que já era a prática mística na Índia, no Tibete e na China.

Nos estados de alma mais confusos e dolorosos, muitos são os discursos possíveis a um amigo em tempus de vida menos fáceis, seja qual for a causa desse momento. Ele é único, no sentido de que é vivido pelos que (uns mais, outros menos) convivem com a situação ou com o amigo. Este, contudo, experencia de forma única a via em que se encontra, mesmo que em determinados momentos não saiba para onde se dirige. Em alturas como estas, "quo vadis" é uma pergunta sem significado e por isso mesmo, sem possibilidade de resposta.

É aí que (filosoficamente) para muitos fará sentido, como me apontaram recentemente (em comentário e presencialmente) que o verdadeiro sentido da vida é extrair do que é percepcionado como negativo num dado momento, uma via para algo de positivo - uma questão de fé na crença de que não estamos sós e de que estamos nesta vida para influenciar positivamente os outros, ainda que, no caminho, inevitavelmente se sofra. Tal só parece fazer sentido, quando o indivíduo, solitariamente, faz por respeitar a sua própria natureza, desta forma respeitando inefavelmente, a natureza dos outros - uma das formas de amor e de amar o próximo.

Daí o mantra me ter (a)parecido com algum sentido.

"O sofrimento é o meu mestre e eu, o seu discípulo".

Vivam, sempre e melhor; que possam encontrar a vossa via.

date

de data ou de saída.
 
de entrada.
 
de vida.

felicitava-a pelo dia, principalmente a ela, se cá estivesse.
 
em vez disso fico em silêncio e relembro os piores momentos de vida;
os momentos que mais me custaram; percebo hoje a forma como fuji deles.
 
dou-me, por isso, ao tempo futuro, que a memória, essa, é triste.

vai tu!

"Vai buscar!" - gritou ele. Al'Khorezmi deu origem ao conceito de "algoritmo". Hoje, a definição passa por "um conjunto predeterminado e bem definido de regras e de processos destinados à solução de um problema, com um número finito de etapas". Isto é talqual a vida, o algoritmo supremo do Homem. Problematizando-a (muito ao jeito dos filósofos) concluo que o tempo (factor "t") é determinante para o percurso das etapas. Se os "tempus" podem não ser convergentes para os solucionadores, como acertadamente me diziam hoje, resta a fé na própria vida, esperando que toda a etapa percorrida tenha um sentido, algum sentido, qualquer sentido, ainda que não totalmente percepcionada pelos actores dessa vida. É nessa dicotomia (fé no sentido da vida vs. vida como ela é) que se encontra a expressão absoluta e radical do livre arbítreo, reflexo do que mais humano o humano pode ter: o erro de avaliação na escolha de vida, perante a função felicidade. Agostinho da Silva, ele próprio radical, não chegou, penso, a explicar a relação entre o mais puro individualismo e a afirmação de vida, se não no que de mais próprio exemplificou com a sua própria vida. Se o "ismo" é um sistema acabado, porque explicativo e completo, o "easyismo" perante a vida aparece como distorção das componentes da função felicidade. Sugere a curta reflexão, que perante o algoritmo vida não existe, portanto, pré-determinação possível, o que compromete a existência de etapas. E não as havendo, inexistem escolhas; assim sendo, torna-se claro que o livre arbítrio é uma ficção. Donde, a vida não é mais que um caos situacionável, conforme ao momento e efémeramente condicionado por "tudo o que é" em redor do indivíduo. Inexiste portanto qualquer sentimento, como seja o amor, a paixão ou o ódio. Subsiste apenas o momento em que o "interesse de vida" condicionado, pode ser mais ou menos estável no tempo e este, criação humana, é uma parcela da ficção individual. Estamos "Sós e sem desculpas".

para que conste

Não correu bem a migração "oferecida" pelo Sapo.
 
Os links desapareceram, bem como as referências aos dois autores: todos os textos ficaram assinados por "tempus.a.tempus".

A operação de migração é irreversível.

Trabalha-se agora com vista à devolução do espaço autoral.