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Tempus a tempus

um espírito próprio dos que vão estando a tempus, in tempus.

Tempus a tempus

um espírito próprio dos que vão estando a tempus, in tempus.

versus

As mãos estão como que cruzadas, tipo velhinha, fantasmagóricas. Eram esfinges resignadas que encenavam a fala. Esfregavam-se, na perspectiva de uma sopa quente, ali, na pejada Mariquinhas. Cantava-se o Fado e nas mesas cantavam-se conversas entre vinhos, histórias e fumos densos.
A seu tempo, entregues a mãos sábias, os instrumentos espalhavam os tons de alma, que também eles se haviam de cantar, num encanto em uníssono com uma particular voz, gaiata, feminina, poderosa.
Levava os gestos bem ensaiados, a fadista da voz nova e limpa, que a outra, mais antiga e rouca, havia de fazer render a sala ao sentimento colocado no tom certo da mágoa do desamor.
São cúmplices na arte, os olhares que se deitam entre as cordas; e o intervalo serve para, na desculpa de um cigarro lá fora, se trocarem acusações de foras de tempo e de entradas a meio-tempo.
Sorri quem sabe, cala-se quem fica, observa quem vai de mansinho, chorar a um canto, que a força faz o canto de quem ali cantou a vida.
Entre doentes, tristes e mudos, ficam em partilha sólidas amizades e amores, que sobem a descoberto ao frio na íngreme calçada.
Nas costas ficam os que, da porta entreaberta, deixam sair ecos de memórias projectadas para futuros, duros, sob a forma de desejos bons, que o meu já cá canta, e se é fado, não me é triste: é a vida como está, tanto minha como, de resto, a tua, ao som de uma linda e única guitarra, tocada a quatro mãos, com um espírito por partitura, uma letra dita sem rima num verso bem decorado, certo e colado, num título chamado amor.


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