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Tempus a tempus

um espírito próprio dos que vão estando a tempus, in tempus.

Tempus a tempus

um espírito próprio dos que vão estando a tempus, in tempus.

situacional

- onde estás?
- aí.
- como estás?
- bem, aqui;
- como te sentes?
- preso entre o que não sei, o que sei que não tenho e o que não sou.
- o que posso dizer? ou fazer?
- emenda-te, que eu, já não tenho espaço nem tempo, se não para ser o que sou.

en saio

Duas raparigas, três cães e a pesca - é tudo o que lhe resta, naquele ar arrumado, asseado, calmo, enquanto explica a origem da familia ao interessado petiz, mas com pormenores que não lhe interessam de todo.

Um pescador educado que reaje com educação a quem lhe chega ao pesqueiro e o partilha sem resmungos, nem fronhas expressivas.

Olho atento à possibilidade de fiscalização, fala varrendo com o olhar em volta, aproveitando para dizer mal dos polícias.

A conversa torna-se-lhes fácil perante interesses óbvios. Ele é pequeno mas sabe já (pelo tio) do isco coreano e de outras artes que tais: das correntes e dos ventos; das marés e das águas turvas; da tralha e do empate. O que ele quer mesmo saber é que peixe há ali, na Foz, duplicidade de designação, com raíz geográfica e nome de terra.

Os peixes agradecem o marisco que vão depenicando sem morder o anzol.

Não é por o sol ter enfraquecido que percebo o frio no vento - é pelo dedos enregelados que nem deixam sentir a queimadura do fio de nylon que corre rápido, à mão, só para entreter a vista.

A noite chega e com ela me fico; à mesma temperatura e a ver o mesmo, que o mesmo é dizer que nada.

Devagar, sem ver bem os caminhos (dos quais apenas sei que estão lá) vou pondo o pé  e deixo-me guiar pela luz que sai deles - resquícios de fé no Amor e noutros sentimentos que alimentam as discussões intelectuais sobre o fundo primordial da natureza humana.

Enrola-se a trela como se fosse o pecurso da vida e segue-se - ainda que com inveja de quem, á nossa volta e não sendo gente, é como a gente feliz, aos pulos, altos.

excertos epistulares

 

"Não. Depois de tudo o que vivi e depois de tudo o que tentei transmitir, acredito que não és como dizes. 

Se de repente sentires de novo que não sabes o que queres e quanto o queres, não é uma atrapalhação, não é uma fase menos boa, nem é exitação fruto de uma determinada conjugação dos astros que influenciam a tua capacidade de decisão.

É mesmo um problema na tua personalidade - que é falha de coragem e especialmente de dizer a verdade e enfrentar a verdade das coisas, a verdade da vida e a verdade das coisas na vida."

 

Mas porque te queixas, afinal?

watersilences

chove mesmo muito bem. a luz dos candeeiros ao fundo ilumina riscos transversais da chuva que tinha sido anunciada pelos sons dos barcos que se ouviam em terra.

os canaviais sopram-se uns aos outros com o vento gelado que os consegue passar.

as passadas que se ouvem são calmas, pesadas, chapinhadas e contrastam com a delicadeza de patitas apressadas conta as madeiras do chão, o que produz um som meio estranho, mas conhecido, algo musical.

sem se perceber quem acompanha quem, surpreendem-se com aquele xilofone inesperado. baixo.

sem abrigos, sem amparos e sem frio.

no cruzar com outros, nem por fora se percebe qual a diferença entre eles e os que ali passam sózinhos a não ser que uns fazem muito mais barulho a pensar.

ao meu sorriso, a coincidência de me mostrarem os dentes numa espécie de devolução de simpatia. sacudimo-nos. o quente não é, nem está em casa.

está ali, entre o escuro e o silêncio de se saber com quem não se está.

I eu je ich 私 yo

mas quem és tu
para mandar recado gaiteiro
como se fosse puto caseiro?
mas quem és tu
para vires assim soprar
ideias minhas no meu ouvido?
mas quem és tu
para me dizer o que sou
quando apenas sou contido?
mas quem és tu
para me dizer onde estou
só porque me tens por perdido
mas quem és tu
para ousar sequer pensar
que sabes quem sou,

quando no que te digo apenas lês sons

tons que vês como frases soltas
ou palavras em teias envoltas?


eu, sou eu: sou este!
sou bem mais que uma frase dita
bem mais do que um desejo solto
mais do que uma ideia ida
bem mais de que uma hora maldita
sou mais que um rio revolto

bem mais do que ar num sopro

muito mais que aquilo que vês
porque eu, sou eu!


sou vida feita a pulso
moldado em ferro malhado
de tanta pancada levada
esculpido em duro granito
de tanta coisa perdida
de tanto erro cometido

de enxerto do inferno sou feito
nesta terra bendita
no chão de pregos me deito
como se em relvas andasse

numa disputa de vidas
na vida me levo a perceber

eu?? antes partir que torcer!

porque eu, sou eu!


sou essa prancha sem vaga
sou este espírito maldito
neste Ser aprisionado
mas sou eu!
e tu,

cara desconhecida
és imensa nessa ideia de nada

 

fictio

[...]

- 'tavas a dormir?

- pá... que horas são?!? deixa - não interessa. vou trabalhar daqui a pouco... está aí um ruído... onde é que estás?

- no sítio onde devias de estar... no Havana! a segurar o balcão...

- ah amigo! que pena não estar aí!

- anda daí!

- vou! eu vou! 'ta quase... duas semanas no máximo e vou!

- DUAS SEMANAS! mas isso é para o ano!!

- !?! para o ano?

- pá... é muito tempo...

- é só o tempo necessário até o tempo ser visto de outra forma...

- está bem; então vou pará-lo, para ser visto da mesma forma pelos dois... traz o outro maluco também; o que é como nós...

- eu digo-lhe... tou? estás?

[...]