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Tempus a tempus

um espírito próprio dos que vão estando a tempus, in tempus.

Tempus a tempus

um espírito próprio dos que vão estando a tempus, in tempus.

passar

e lá foram. foram os dias e as noites. ficaram alegrias e tristezas, empilhadas no passado. mágoas no tempo.

são momentos. os mais velhos dizem que tudo passa com o tempo. que o passado é irreversível. não sei. provavelmente ainda não sou suficientemente velho. por vezes fica a sensação que são os momentos que ficam e somos nós que passamos por eles. mais uma forma de inversão do conceito de tempo. o mais estranho é que o tempo, invenção do Homem, não pode ser parado, nem destruído, enquanto se existe.

fica-se agarrado ao tempo enquanto a vida flui para alguém. quando a vida lhe pára, o tempo só corre para ele na memória dos outros, enquanto eles quiserem ou lhes for possível. neste sentido, verdadeiramente livres, não são os que são ricos, sós, ou qualquer outra situação da vida, mas sim os que decidirem "desalinhar" - não se subjugarem ao tempo e às angústias que lhe estão inerentes. o choque com os "alinhados" é incontornável.

Perante a tristeza de outros, a nossa é bem menor, porque em regra, ou nos sentimos causadores, ou responsáveis, ou impotentes para amenizar o próximo. Compreendo hoje o meu conhecido Poças (não era amigo íntimo) e a última conversa que tivemos, acidentalmente. ele, que quando quis parar o tempo, parou-se a si mesmo.

o tempo continuou para todos os outros. para ele, contudo, só na minha memória.

carta ao amigo

Lx, 13 de Dezembro de 2006

pois é como te digo, caro amigo e companheiro Gibral. Tocaram-me as tuas palavras, por saber que as mesmas se te dirigiam.

A vida é isso mesmo, uma demonstração de afectos sob a mais variada forma. Reconheço em ti e no grupo a que pertences a bondade personificada, que teve tempo para, em vão, vir bater-me à porta e arrancar-me da rotina.

obrigado por me lembrares das coisas simples da vida e da existência de vidas piores. obrigado por pedires desculpa por seres intrusivo. obrigado pelo teu tempo. obrigado por me realçares o lado negro, apenas para lembrar que o contrário é luz.

O teu amigo,

 

piedras rolantes...

provavelmente, quando estiver mais sóbrio, arrepender-me-ei deste "post". mas têm sido tantos os gnomos, feiticeiros e fadas a intervir (e ainda bem) que me sinto compelido a escrever umas linhas em nossa defesa - minha e do Zud.
afinal de contas, sempre era uma pedra para muito conteúdo alcoólico.
a pena por nós próprios, como foi dito algures, não existe.
existe sim, uma outra dimensão de nós, de sentimentos; uma situação
complexa, que se traduz em amar e respeitar; amar quem nos tem, quem nos teve mais; ou demais; ou de menos; e respeitar muito quem quase tudo foi para nós, tudo sendo, ou sendo muito e que muito nos tem dado de si.
a questão está de facto, nas pedras de gelo. sejam as que forem, consoante o que se bebe e com quem se quer beber.
se não tivessemos valores, elas não derretiam sequer: eram substituídas. o problema é que as pedras se dissolvem e fica uma mistura: nem água, nem a bebida original. nada é, jamais, o mesmo.
nem nós, nem as pedras. se fosse um simples caso de embriaguez era fácil: uma cura, uma abstinência, uma intervenção de um guronsan e a coisa continuava.

mas há muito respeito, muito receio de magoar e claro, de se sair magoado.
as pessoas que, bem intencionadas, se fazem recorrer a frases do tipo "cresces com a situação", ou "embriaga-te pela vida" (não é o teu caso "outra feiticeira") vêem elas próprias de uma perspectiva pessoal e interessada (são parte interessada) e raramente se apercebem que o acordar para a vida já nos aconteceu - e da pior forma.

aos poucos, nos vamos confessando - uma tentativa desesperada de se ser honesto para nós e para os que nos importam.
daí que que o cutty com pedras sejam uma pedra no sapato da vida.
difícil de viver, sem se conseguir descalçar, quanto mais não fosse, por respeito. muito.
 
nesta fase da vida, quem consegue viver assim? com que qualidade? com que fé na vida em que se acredita, para quem sempre soube que não somos mera passagem, mas que enquanto por cá andamos, interferimos uns com os outros e uns nos outros?

em termos de física racionalista, somos átomos da enorme massa da vida, desejando vivê-la enquanto se tenta evitar a colisão na trajectória em torno de um núcleo.

se perdemos o núcleo, deriva-se da estrutura onde gravitávamos - fica-se à deriva.

a nossa culpa é bem simples: amamos desinteressadamente e em consciência. e porque somos pessoas conscientes, importam-nos os sentimentos dos outros, por vezes a ponto de nos preocuparmos menos connosco. essa é a dor e a contradição nos termos: não nos sabermos perdoar, mesmo que os outros a quem magoámos, nos perdoem.

tudo isto porque precisamos de ser felizes. sem contradições.

cortes

- cortaste-te. - sim. - a fazer-lhes o jantar, não? - não. - foi descuido? - não. - negligência? - sim.

 - deve ter doído. claro que já reparaste, mas estás a sangrar.

- sim. - dói muito? - sim. - bom, estás ocupado. continua lá com a tua dor. - sim. - precisas de alguma coisa? - do mesmo que o meu amigo. - o quê? - cutty; duplo; com três pedras.
- ele tinha dito duas; - sim; mas eu, quero três.

sabores

não era preciso ter grande paladar, para saber que o sabor estava diferente.
o vinho não sabia ao mesmo.
o mojito também não.
o gin estava diferente - diferentemente do outro que que se deixava beber.
a guiness, mais aguada que outras vezes.
até a água estava esquisita.
 
nenhuma tinha sal.