Segunda-feira, 27 de Outubro de 2008
into ler ansias

deve ser uma intolerância que vem com a idade, essa, a de já não ir com a mesma disposição, como se o receio fosse preencher um não sei quê em falta e não voltar.

 

as saudades do país medem-se pela velocidade com que se corre para um cozido à portuguesa, mesmo cometendo o pecado de se não juntar o chispe.

 

as saudades das pessoas, medem-se pelo sorriso largo que se faz na chegada, sem contenção de qualquer espécie: um sorriso que se oferece sem desencanto nem deslumbramento; tem é que ser limpo e de covinhas.

 

as saudades dos filhos, avaliam-se pelo aperto do abraço - o deles.

 

as saudades do cão, incomodativo, penco-persistente na exigência de atenção, pelos pulos que dá quando nos vê.

 

em antecipação, sempre se faz o cozido. sem chispe. ao menos leva-se no goto a lembrança enfartada do pouco que há.



publicado por Tempus às 01:13
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Quarta-feira, 15 de Outubro de 2008
diálogo de surdos

- não gosto de judo!

- então, vamos!

- mas eu não gosto! tenho os pés a arderem!

- então, vamos! anda!

- mas eu não gosto de judo! estou sempre a cair!

- então vá! levanta-te...

- mas eu... mas eu já não gosto de judo!

- boa! cada vez gostas mais certo?

- quando for época de testes, eu não quero vir!

- boa altura para descomprimires aqui, conosco, no tapete!

- mas eu não gosto de judo?!!

- [...] diz porquê.

- hummmmm... não gosto, pronto.

- tori?

- sim.

- hajime!



publicado por Tempus às 21:33
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Segunda-feira, 6 de Outubro de 2008
voltado

"voltado

volteado

descoberto

sem remorso ou questão

porque a pergunta já fora

a fora

de si mesmo

em tempo

incerto

mas tendo por perto

essa estranha

forma

(a fora) de ser

na vida em terra

marinheiro com sede

de viver"

 

Várius Bárius.

 

 



publicado por Tempus às 21:58
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Segunda-feira, 9 de Junho de 2008
imagines

via-se como um velho e não era por o sentir - porque descobriu que afinal, sentir, não lhe era nada. "quando era uma criança, fazia criancices e agora que sou homem, faço coisas de homem".

entre a parábola e a citação bíblica, fazem-se coisas de velho pela aparência das próprias coisas: ver fotos.

pequenos e grandes momentos vividos, retidos em sistemas digitais, que, reparo agora, trazem à memória outras imagens de um mundo analogicamente íntimo; descubro-me sem passado documental, preso nesta estranha paragem de metro, à espera do "maquinista", que há-de ser a favor ou contra a libertação destra "matrix" pessoal.

o agora embirrante lema "para mais tarde recordar" incomoda, porque nunca se sabe se irá haver um "mais tarde", género "para onde vou" da espécie "estar por cá".

com ternura, para dizer o mínimo, revejo-o feliz enquanto acanhado, naquele momento de triunfo muito pessoal, no cimo do podium de madeira pintada.

partilho da sua satisfação pela vitória obtida; onde antigamente cabia um brado de "segundos" num jogo de apanhada ou de escondidascabe agora um espaço de afirmação. ao vê-lo assim, sei que não errei em muito do tudo o que fiz e disse - não me revejo nele, nem lhe peço que seja o que não fui ou não sou; vejo-o já de cana em punho, à pesca das situações da vida. queira Deus, os bons espíritos, de preferência ambos, que sejam guardados do fracasso de não serem pessoas autênticas no século em que ser pessoa é o que menos conta.

o grito dos antigos "honra e glória" passou de "modus vivendi" a citação; coisa do passado onde se refundem mágoas, atropelos, exitações, excitações e outras coisas escondidas, sem história.

escondidas. é como as pessoas tendem a vivenciar - não viver - a sua experiência de vida menos boa.

como os velhos, contemplam lagos imensos onde se diluem as suas próprias imagens e as dos outros, como gostariam de ser, de estar, ou de ficar.

como eu.



publicado por Tempus às 20:59
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Terça-feira, 29 de Abril de 2008
sine tempus
ahhhhh!

meio louco no tempo que corre, que louco é dizer arritmia, desproporção, extremismo  entre vazio e cheio e depois, esse cansaço que vem do fundo da Primavera feita Outono antecipado pelo que havia de ser feito, ser tido, ter sido, ter amado... dor aguda, funda, bem no centro das ideias.

tempos frios estes, insanos, onde a lógica foi sobreposta ao sentimento só para afirmar qualquer coisa de inexoravel, tudo sob o aplauso do incauto da alma perdida;

isso que se sente nem é uma falta de caminho quando se quer andar; é antes a ausência daquele tónus a que chamam de "vital".

músculos sem força. ideia fraca num coração forte. contradições da vida.

a ideia de pessoa, de que a memória guarda imagem e insiste que a mostra seja tão real como a forma da névoa num pesadelo - quem disse que os sonhos não são a cores?.

empate tácito este, o de não se saber quem se é e de não se saber quem é quem e quanto. ausência de tudo, no nada, em dose diária.

e sempre aquela sensação interna, como que na origem de tudo, que não se sabe (sequer e se quer e) se há-de ser um sentimento ou a absoluta ausência dele, ou daquilo que, devagar, se toma consciência nunca ter tido.

atrapalhação dos espíritos que tornam descartável a pessoa e o pouco que se vale, que o mesmo é dizer nada.

fim.

publicado por Tempus às 21:11
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Quarta-feira, 16 de Abril de 2008
imag inem
a expressão contêm em si algo de imagem.
então, "percepcionem esta imagem".
 
imaginem alguém alguém cansado de políticas sem justiça, de justiça sem política criminal e a ver escapar entre os dedos a hipótese de contribuir para "a unidade do sistema jurídico";
imaginem que se rabisca em menos de trinta minutos e em meia dúzia de páginas um parecer jurídico.

imaginem que a fundamentação é de tal ordem, que analisada por varios doutores, estremecem com as consequências desse parecer.

imaginem que o Estado podia ser processado por milhares de pessoas, desde 19 de Agosto de 2004.

imaginem, que muitas centenas de processos, teriam de ser arquivados; e muitos julgamentos anulados; e que a responsabilidade política de tal era intoleravelmente alta;

imaginem, que convidam o subscritor do parecer a retirá-lo e ele responde "a mim ninguém me cala"; e imaginem que o faz por um ideal, por um determinado sentido de dever, e porque acredita que o não deve fazer - ceder;

imaginem que vem à baila a carreira, descarreira, o custo social e se responde: dura lex, sed lex.

imaginem.


quid juris?

publicado por Tempus às 20:47
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Quinta-feira, 20 de Março de 2008
tiradas iniciais

"...não vez que é de nós o jardim que se fez..."

"deixa-me voltar a dormir"

"dar-te a paz que perdi"

"faz voltar o que tens, porque é meu"

publicado por Tempus às 12:56
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Domingo, 24 de Fevereiro de 2008
situacional
- onde estás?
- aí.
- como estás?
- bem, aqui;
- como te sentes?
- preso entre o que não sei, o que sei que não tenho e o que não sou.
- o que posso dizer? ou fazer?
- emenda-te, que eu, já não tenho espaço nem tempo, se não para ser o que sou.

publicado por Tempus às 19:55
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Sábado, 23 de Fevereiro de 2008
en saio

Duas raparigas, três cães e a pesca - é tudo o que lhe resta, naquele ar arrumado, asseado, calmo, enquanto explica a origem da familia ao interessado petiz, mas com pormenores que não lhe interessam de todo.

Um pescador educado que reaje com educação a quem lhe chega ao pesqueiro e o partilha sem resmungos, nem fronhas expressivas.

Olho atento à possibilidade de fiscalização, fala varrendo com o olhar em volta, aproveitando para dizer mal dos polícias.

A conversa torna-se-lhes fácil perante interesses óbvios. Ele é pequeno mas sabe já (pelo tio) do isco coreano e de outras artes que tais: das correntes e dos ventos; das marés e das águas turvas; da tralha e do empate. O que ele quer mesmo saber é que peixe há ali, na Foz, duplicidade de designação, com raíz geográfica e nome de terra.

Os peixes agradecem o marisco que vão depenicando sem morder o anzol.

Não é por o sol ter enfraquecido que percebo o frio no vento - é pelo dedos enregelados que nem deixam sentir a queimadura do fio de nylon que corre rápido, à mão, só para entreter a vista.

A noite chega e com ela me fico; à mesma temperatura e a ver o mesmo, que o mesmo é dizer que nada.

Devagar, sem ver bem os caminhos (dos quais apenas sei que estão lá) vou pondo o pé  e deixo-me guiar pela luz que sai deles - resquícios de fé no Amor e noutros sentimentos que alimentam as discussões intelectuais sobre o fundo primordial da natureza humana.

Enrola-se a trela como se fosse o pecurso da vida e segue-se - ainda que com inveja de quem, á nossa volta e não sendo gente, é como a gente feliz, aos pulos, altos.



publicado por Tempus às 01:57
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Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008
excertos epistulares

 

"Não. Depois de tudo o que vivi e depois de tudo o que tentei transmitir, acredito que não és como dizes. 

Se de repente sentires de novo que não sabes o que queres e quanto o queres, não é uma atrapalhação, não é uma fase menos boa, nem é exitação fruto de uma determinada conjugação dos astros que influenciam a tua capacidade de decisão.

É mesmo um problema na tua personalidade - que é falha de coragem e especialmente de dizer a verdade e enfrentar a verdade das coisas, a verdade da vida e a verdade das coisas na vida."

 

Mas porque te queixas, afinal?



publicado por Tempus às 11:38
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Domingo, 17 de Fevereiro de 2008
watersilences
chove mesmo muito bem. a luz dos candeeiros ao fundo ilumina riscos transversais da chuva que tinha sido anunciada pelos sons dos barcos que se ouviam em terra.

os canaviais sopram-se uns aos outros com o vento gelado que os consegue passar.

as passadas que se ouvem são calmas, pesadas, chapinhadas e contrastam com a delicadeza de patitas apressadas conta as madeiras do chão, o que produz um som meio estranho, mas conhecido, algo musical.

sem se perceber quem acompanha quem, surpreendem-se com aquele xilofone inesperado. baixo.

sem abrigos, sem amparos e sem frio.

no cruzar com outros, nem por fora se percebe qual a diferença entre eles e os que ali passam sózinhos a não ser que uns fazem muito mais barulho a pensar.

ao meu sorriso, a coincidência de me mostrarem os dentes numa espécie de devolução de simpatia. sacudimo-nos. o quente não é, nem está em casa.

está ali, entre o escuro e o silêncio de se saber com quem não se está.

publicado por Tempus às 21:31
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Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008
I eu je ich 私 yo

mas quem és tu
para mandar recado gaiteiro
como se fosse puto caseiro?
mas quem és tu
para vires assim soprar
ideias minhas no meu ouvido?
mas quem és tu
para me dizer o que sou
quando apenas sou contido?
mas quem és tu
para me dizer onde estou
só porque me tens por perdido
mas quem és tu
para ousar sequer pensar
que sabes quem sou,

quando no que te digo apenas lês sons

tons que vês como frases soltas
ou palavras em teias envoltas?


eu, sou eu: sou este!
sou bem mais que uma frase dita
bem mais do que um desejo solto
mais do que uma ideia ida
bem mais de que uma hora maldita
sou mais que um rio revolto

bem mais do que ar num sopro

muito mais que aquilo que vês
porque eu, sou eu!


sou vida feita a pulso
moldado em ferro malhado
de tanta pancada levada
esculpido em duro granito
de tanta coisa perdida
de tanto erro cometido

de enxerto do inferno sou feito
nesta terra bendita
no chão de pregos me deito
como se em relvas andasse

numa disputa de vidas
na vida me levo a perceber

eu?? antes partir que torcer!

porque eu, sou eu!


sou essa prancha sem vaga
sou este espírito maldito
neste Ser aprisionado
mas sou eu!
e tu,

cara desconhecida
és imensa nessa ideia de nada

 



publicado por Tempus às 00:20
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Sábado, 2 de Fevereiro de 2008
fictio

[...]

- 'tavas a dormir?

- pá... que horas são?!? deixa - não interessa. vou trabalhar daqui a pouco... está aí um ruído... onde é que estás?

- no sítio onde devias de estar... no Havana! a segurar o balcão...

- ah amigo! que pena não estar aí!

- anda daí!

- vou! eu vou! 'ta quase... duas semanas no máximo e vou!

- DUAS SEMANAS! mas isso é para o ano!!

- !?! para o ano?

- pá... é muito tempo...

- é só o tempo necessário até o tempo ser visto de outra forma...

- está bem; então vou pará-lo, para ser visto da mesma forma pelos dois... traz o outro maluco também; o que é como nós...

- eu digo-lhe... tou? estás?

[...]



publicado por Tempus às 19:31
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Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2008
ponto sem parágafo

sentimento tido
espero que o tempo passe
só um - pouco
só de um pouco mais
que em tempo me encontres
ou numa memória

mais ou menos
fixa mais ou menos
boa mais ou menos
perto que longe já eu estou

sem tino
espero que o ódio desapareça
esmoreça e passe
só um pouco
só um pouco mais
fiel amiga do tempo ido
que quem se ficou fui eu
numa memória mais ou menos
fixa num tempo mais ou menos
curto mais ou menos
bom mais ou menos
perto que ferido já eu estou

sentido

por não haver logos
vejo o fundo desse abismo
onde mergulhamos sem riso
porque enterrado fui
numa memória mais ou menos
fixa mais ou menos
boa mais ou menos
perto que morto (Amor)

já eu estou

 

 

Poemas Celtas

 



publicado por Tempus às 17:51
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