deve ser uma intolerância que vem com a idade, essa, a de já não ir com a mesma disposição, como se o receio fosse preencher um não sei quê em falta e não voltar.
as saudades do país medem-se pela velocidade com que se corre para um cozido à portuguesa, mesmo cometendo o pecado de se não juntar o chispe.
as saudades das pessoas, medem-se pelo sorriso largo que se faz na chegada, sem contenção de qualquer espécie: um sorriso que se oferece sem desencanto nem deslumbramento; tem é que ser limpo e de covinhas.
as saudades dos filhos, avaliam-se pelo aperto do abraço - o deles.
as saudades do cão, incomodativo, penco-persistente na exigência de atenção, pelos pulos que dá quando nos vê.
em antecipação, sempre se faz o cozido. sem chispe. ao menos leva-se no goto a lembrança enfartada do pouco que há.
- não gosto de judo!
- então, vamos!
- mas eu não gosto! tenho os pés a arderem!
- então, vamos! anda!
- mas eu não gosto de judo! estou sempre a cair!
- então vá! levanta-te...
- mas eu... mas eu já não gosto de judo!
- boa! cada vez gostas mais certo?
- quando for época de testes, eu não quero vir!
- boa altura para descomprimires aqui, conosco, no tapete!
- mas eu não gosto de judo?!!
- [...] diz porquê.
- hummmmm... não gosto, pronto.
- tori?
- sim.
- hajime!
"voltado
volteado
descoberto
sem remorso ou questão
porque a pergunta já fora
a fora
de si mesmo
em tempo
incerto
mas tendo por perto
essa estranha
forma
(a fora) de ser
na vida em terra
marinheiro com sede
de viver"
Várius Bárius.
via-se como um velho e não era por o sentir - porque descobriu que afinal, sentir, não lhe era nada. "quando era uma criança, fazia criancices e agora que sou homem, faço coisas de homem".
entre a parábola e a citação bíblica, fazem-se coisas de velho pela aparência das próprias coisas: ver fotos.
pequenos e grandes momentos vividos, retidos em sistemas digitais, que, reparo agora, trazem à memória outras imagens de um mundo analogicamente íntimo; descubro-me sem passado documental, preso nesta estranha paragem de metro, à espera do "maquinista", que há-de ser a favor ou contra a libertação destra "matrix" pessoal.
o agora embirrante lema "para mais tarde recordar" incomoda, porque nunca se sabe se irá haver um "mais tarde", género "para onde vou" da espécie "estar por cá".
com ternura, para dizer o mínimo, revejo-o feliz enquanto acanhado, naquele momento de triunfo muito pessoal, no cimo do podium de madeira pintada.
partilho da sua satisfação pela vitória obtida; onde antigamente cabia um brado de "segundos" num jogo de apanhada ou de escondidascabe agora um espaço de afirmação. ao vê-lo assim, sei que não errei em muito do tudo o que fiz e disse - não me revejo nele, nem lhe peço que seja o que não fui ou não sou; vejo-o já de cana em punho, à pesca das situações da vida. queira Deus, os bons espíritos, de preferência ambos, que sejam guardados do fracasso de não serem pessoas autênticas no século em que ser pessoa é o que menos conta.
o grito dos antigos "honra e glória" passou de "modus vivendi" a citação; coisa do passado onde se refundem mágoas, atropelos, exitações, excitações e outras coisas escondidas, sem história.
escondidas. é como as pessoas tendem a vivenciar - não viver - a sua experiência de vida menos boa.
como os velhos, contemplam lagos imensos onde se diluem as suas próprias imagens e as dos outros, como gostariam de ser, de estar, ou de ficar.
como eu.
Duas raparigas, três cães e a pesca - é tudo o que lhe resta, naquele ar arrumado, asseado, calmo, enquanto explica a origem da familia ao interessado petiz, mas com pormenores que não lhe interessam de todo.
Um pescador educado que reaje com educação a quem lhe chega ao pesqueiro e o partilha sem resmungos, nem fronhas expressivas.
Olho atento à possibilidade de fiscalização, fala varrendo com o olhar em volta, aproveitando para dizer mal dos polícias.
A conversa torna-se-lhes fácil perante interesses óbvios. Ele é pequeno mas sabe já (pelo tio) do isco coreano e de outras artes que tais: das correntes e dos ventos; das marés e das águas turvas; da tralha e do empate. O que ele quer mesmo saber é que peixe há ali, na Foz, duplicidade de designação, com raíz geográfica e nome de terra.
Os peixes agradecem o marisco que vão depenicando sem morder o anzol.
Não é por o sol ter enfraquecido que percebo o frio no vento - é pelo dedos enregelados que nem deixam sentir a queimadura do fio de nylon que corre rápido, à mão, só para entreter a vista.
A noite chega e com ela me fico; à mesma temperatura e a ver o mesmo, que o mesmo é dizer que nada.
Devagar, sem ver bem os caminhos (dos quais apenas sei que estão lá) vou pondo o pé e deixo-me guiar pela luz que sai deles - resquícios de fé no Amor e noutros sentimentos que alimentam as discussões intelectuais sobre o fundo primordial da natureza humana.
Enrola-se a trela como se fosse o pecurso da vida e segue-se - ainda que com inveja de quem, á nossa volta e não sendo gente, é como a gente feliz, aos pulos, altos.
"Não. Depois de tudo o que vivi e depois de tudo o que tentei transmitir, acredito que não és como dizes.
Se de repente sentires de novo que não sabes o que queres e quanto o queres, não é uma atrapalhação, não é uma fase menos boa, nem é exitação fruto de uma determinada conjugação dos astros que influenciam a tua capacidade de decisão.
É mesmo um problema na tua personalidade - que é falha de coragem e especialmente de dizer a verdade e enfrentar a verdade das coisas, a verdade da vida e a verdade das coisas na vida."
Mas porque te queixas, afinal?
mas quem és tu
para mandar recado gaiteiro
como se fosse puto caseiro?
mas quem és tu
para vires assim soprar
ideias minhas no meu ouvido?
mas quem és tu
para me dizer o que sou
quando apenas sou contido?
mas quem és tu
para me dizer onde estou
só porque me tens por perdido
mas quem és tu
para ousar sequer pensar
que sabes quem sou,
quando no que te digo apenas lês sons
tons que vês como frases soltas
ou palavras em teias envoltas?
eu, sou eu: sou este!
sou bem mais que uma frase dita
bem mais do que um desejo solto
mais do que uma ideia ida
bem mais de que uma hora maldita
sou mais que um rio revolto
bem mais do que ar num sopro
muito mais que aquilo que vês
porque eu, sou eu!
sou vida feita a pulso
moldado em ferro malhado
de tanta pancada levada
esculpido em duro granito
de tanta coisa perdida
de tanto erro cometido
de enxerto do inferno sou feito
nesta terra bendita
no chão de pregos me deito
como se em relvas andasse
numa disputa de vidas
na vida me levo a perceber
eu?? antes partir que torcer!
porque eu, sou eu!
sou essa prancha sem vaga
sou este espírito maldito
neste Ser aprisionado
mas sou eu!
e tu,
cara desconhecida
és imensa nessa ideia de nada
[...]
- 'tavas a dormir?
- pá... que horas são?!? deixa - não interessa. vou trabalhar daqui a pouco... está aí um ruído... onde é que estás?
- no sítio onde devias de estar... no Havana! a segurar o balcão...
- ah amigo! que pena não estar aí!
- anda daí!
- vou! eu vou! 'ta quase... duas semanas no máximo e vou!
- DUAS SEMANAS! mas isso é para o ano!!
- !?! para o ano?
- pá... é muito tempo...
- é só o tempo necessário até o tempo ser visto de outra forma...
- está bem; então vou pará-lo, para ser visto da mesma forma pelos dois... traz o outro maluco também; o que é como nós...
- eu digo-lhe... tou? estás?
[...]
sentimento tido
espero que o tempo passe
só um - pouco
só de um pouco mais
que em tempo me encontres
ou numa memória
mais ou menos
fixa mais ou menos
boa mais ou menos
perto que longe já eu estou
sem tino
espero que o ódio desapareça
esmoreça e passe
só um pouco
só um pouco mais
fiel amiga do tempo ido
que quem se ficou fui eu
numa memória mais ou menos
fixa num tempo mais ou menos
curto mais ou menos
bom mais ou menos
perto que ferido já eu estou
sentido
por não haver logos
vejo o fundo desse abismo
onde mergulhamos sem riso
porque enterrado fui
numa memória mais ou menos
fixa mais ou menos
boa mais ou menos
perto que morto (Amor)
já eu estou
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